O fim da guerra de 1939-1945 e a tentativa de reorganizar a ordem mundial a partir da Carta da Nações Unidas tornaram evidentes e irrecusáveis dois legados de consistência difícil que são o legado maquiavélico e o legado humanista. O primeiro recebe a sua identificação de Maquiavel (1459-1517), mas não apenas o autor de o príncipe, também o autor da arte da guerra que atende ao facto da hierarquia do poder e à regra imoral de que - quem tem força faça-o para submeter o adversário. O principal agente desta vertente é o Estado, uma organização cujas fronteiras territoriais, com raras exceções, se alguma, foram sempre estabelecidas pela guerra. Nunca foi lisonjeiro o conceito ético sobre o Maquiavelismo, mas nunca diminuiu a necessidade de o manter na primeira linha das nossas preocupações..O segundo legado que conjuga contribuições religiosas e laicas, e que deve tanto aos teólogos como aos juristas e aos internacionalistas, anda a enriquecer-se com o encontro de todas as áreas culturais, que este século tornou possível, substituindo o objetivo da submissão forçada à vontade alheia, em vez do consentimento, à luz de uma escala de valores organizada ao redor da convicção de que cada homem é um fenómeno que não se repete na história da humanidade. Daqui deriva o seu valor único e a regra de que a injustiça feita a um homem é uma injustiça feita a todos os homens. A vigência continuada e paralela de ambos os legados, implica que se encontrem numa área de disputa na qual se procura decidir, por um lado, quando a guerra é justa, se alguma vez o for, quanto às causas e, em qualquer caso, quais os limites valorativos desse exercício de força, designadamente a barreira dos crimes contra a humanidade..A enormidade dos factos incrimináveis, justificou a proclamação feita por Roosevelt e Churchill, em outubro de 1941, no sentido de que "a justa punição dos criminosos de guerra é um dos mais importantes objetivos do conflito", e que levou a instituir o Tribunal Internacional de Justiça que tem a sua função desde novembro de 1945. Decisão hoje posta em evidência pelos atos de guerra praticados pela Rússia contra a Ucrânia. Segundo notícias divulgadas recentemente (notícia ainda não confirmada), a Universidade Estatal de Moscovo, a mais antiga da Rússia, emitiu uma carta assinada por cerca de 4000 académicos, estudantes e graduados, que nesse texto assumiram: "Nós, estudantes, estudantes de graduações, professores, funcionários, e graduados, da mais antiga Universidade da Rússia, com o nome de Lomonosov MSU, condenamos categoricamente a guerra que o nosso país desencadeou na Ucrânia.".Temos na nossa cultura histórica mais de um exemplo de intervenção semelhante dos estudantes, designadamente quando da celebração do centenário do Centro Académico da Democracia Cristã de Coimbra, no ano 2001. Pude observar o movimento académico inspirado pelo grave período em que, designadamente, era clara a avaliação da previsão Malraux sobre o século XXI: "O século XXI será religioso ou não será." Naquele encontro sugeriram que seria necessário desenvolver uma iniciativa, que julgo devida ao grande Secretário-Geral da ONU, que foi Dag Hammarskjöld, de criar na sede da ONU, uma sala para meditação de todas as religiões, as quais não criaram a cooperação sugerida, pelo que até hoje apenas o Papa católico é convidado para dirigir o seu pensamento e mandamentos à Assembleia Geral das Nações Unidas. Isso não evitou que o famoso e infeliz ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, levasse a registar que a Al-Qaeda tenha incluído valores religiosos no seu conceito estratégico..O estado do mundo em Paris em 2015 - com o aviso alarmante do massacre de Paris - voltou a por em evidência de que existem, invocados, ou não proclamados, os recursos a tais valores. Faz parte da história a intervenção louvável de João Paulo II, quando promoveu o movimento de Assis, conseguindo a participação de variadíssimas crenças religiosas, um facto histórico que o Papa Francisco não deixou esquecer. Isto significa, não necessariamente, que seja sempre o recurso a valores apenas impostos pela cultura, e por isso a coincidência de objetivos, não implica necessariamente que movimentos culturais de juventude tenham na sua ética origem religiosa mas inscrevem-se sempre na cultura que foi definida como orientadora da ONU. Neste caso da guerra levantada pela Rússia à Ucrânia, a inspiração parece ter vinculações na convicção de que a terceira Roma não cairá..Os efeitos impostos ao processo de imposição da vontade do governo russo contra a Ucrânia ainda que se apoie nessa citação, não parecem poder impedir legitimamente o levantamento da juventude da Universidade de Moscovo. Pelo menos nas obrigações do Conselho de Segurança, das declarações de direito da ONU, e na competência do Tribunal Internacional, está em vigor, e é grave ilícita a não observância. As vítimas da Ucrânia pediram e receberam a presença de Nossa Senhora de Fátima Peregrina. O milagre urgente é que não destruam a "Terra casa comum dos Homens".